quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O refluxo conservador e sua roupagem regionalista

A campanha eleitoral desse ano já ganhou o lugar-comum da baixeza e escassez de propostas, mas tem muito mais a revelar além da picuinha entre petistas e tucanos. No domingo último, após a consagração de Dilma nas urnas, um onda xenofóbica correu a internet por meio de diversas redes sociais como o orkut, facebook e twitter. Eleitores de Serra culparam os nordestinos pela derrota do seu estimado, emitindo ofensas como "Nordestino não é gente, faça um favor a SP, mate um nordestino afogado", "tem gente que fala que todos os brasileiros são iguais, discordo....não quero e não sou igual ao povo do norte/nordeste", "parabéns eleitor, o norte/nordeste elegeu uma presidente, e o do sul/sudeste tem que trabalhar pra sustentar essa cambada de vagabundos". As frases postadas respectivamente por Mayara Petruso, @merlinlipe e @LcGasparello no twitter são apenas alguns meros exemplos de uma enxurrada de ofensas aos nordestinos e que na comunidade do Arnaldo Jabor no orkut aderiu aos termos "Nordestinos são uma ameba" em postagem do perfil de Alexandre Massa.

http://www.youtube.com/watch?v=tCORsD-hx0w&feature=player_embedded#!

O vídeo do link acima é uma catalogação das insanidades cometidas pelos eleitores magoados que não se deram nem ao trabalho de verificar que a candidata petista ganharia a eleição mesmo que excluído o nordeste. Isso é a prova real que o racismo e a xenofobia são latentes no país, o que nos cobra maior atenção à nossa "democracia racial", em que mazelas da nossa sociedade são maquiadas por uma retórica de pluralidade. A ressurgência de tais comportamentos provém da insatisfação de uma elite da sociedade com um governo que direcionou políticas públicas para os pobres, numa forma de social-democracia que contrariou a agenda neoliberal do governo anterior, logo aquele que carrega a social-democracia em sua sigla. O PSDB, perdido em seus compromissos escusos, avaliou tarde que a social-democracia do hemisfério sul migrou do trabalhismo para o povo pobre (como recentemente dito por Fernando Henrique em entrevista), e só agora na campanha eleitoral aderiu ao bolsa família, numa onda de propostas populistas (dobrar o bolsa-família; reajustar o salário mínimo e aposentadorias) que contradiziam a pregada política fiscal, causando uma contradição para os seus próprios eleitores, logo aqueles que achavam que a bolsa-família é uma bolsa-esmola paga pelos impostos paulistas. O serrismo cavou a própria cova!



Não bastasse a popularidade de Lula o conflito interno no PSDB, com a acirrada disputa entre Serra e Aécio, o boato da saída do mineiro do partido após a eleição, o fogo amigo da espionagem interna e o movimento mineiro da dilmasia, gravitaram todas as forças serristas para São Paulo e suas adjacências latifundiárias e monocultoras. O conservadorismo e sua promiscuidade com os tucanos, em que cada um via no outro a possibilidade de fortalecimento, fizeram pautar a campanha numa tecnologia do terror, transformando Dilma numa guerrilheira assassina, que quer matar as criancinhas e acabar com as famílias ao instituir o casamento gay. Quando numa campanha se fala em religião, aborto, homofobia e valores da família prestemos bem atenção, é por que vem uma festa do chá querendo restabelecer os privilégios elitistas, que se tempos atrás eram representados pelos senhores do engenho e do café hoje estão vestidos com ternos comprados com dinheiro do agronegócio e da especulação financeira na bovespa.

Renasce o "São Paulo para os paulistas", evidente num separatismo xenofóbico que culpa suas mazelas nos migrantes nordestinos, povo sem cultura, inteligência ou instrução, e que por isso votaram na Dilma, a elegeram. Num texto muito lúcido a economista Tânia Bacelar (aqui) contrapõe essa concepção estreita do voto nordestino, mostrando que aquilo que fez com que o nordeste votasse vermelho foi um conjunto de políticas que possibilitaram ao mais pobres consumir, comer e estudar, por meio de investimentos e reajustes salariais acima da inflação que produziram efeitos além daqueles do bolsa-família, aumentando o poder de compra do trabalhador.

Em face desses impasses podemos entender o ódio exposto pelo ressentimento tucano-paulista contra os nordestinos, construído por um conservadorismo em cena que abriga a Tradição, Família e Propriedade, movimento que legitimou o golpe de 64, e o partido monarquista, os quais produziram milhares de panfletos anti-Dilma distribuídos em eventos oficiais do PSDB. É um conservadorismo à esteira da Tea Party, movimento conservador estadunidense contra o presidente Obama, e que pretende "tomar nosso país de volta", numa expressão que cabe muito bem aos anseios tucanos. É bem do tipo que justifica os problemas do seu território pela imigração, como já o fez Serra (aqui), e que faz uma campanha terrorista levada ao ápice às vésperas da eleição com um vídeo criminoso postado num blog tucano que com imagens reais forja um prognóstico caótico e totalitário do governo Dilma (aqui).

As divergências políticas deveriam se resguardar abaixo do respeito, senão pelo concorrente, que fosse pelo eleitor, contudo quem mais sai perdendo é o PSDB, que deveria exercer seu necessário papel de oposição com dignidade, contribuindo para a pauta nacional ao contrário de incitar ódio no país e de pregar o medo. Desse ponto de vista Serra está bem mais perto do populismo de Chavez do que o Lula, pois este, longe de ser canonizado, não poderia ser comparado a um caudilho, pelo fato de já ter marcado na história sua própria personalidade.


4 comentários:

  1. Ótimas colocações Thiago, acredito que realmente di fato todos nós brasileiros devemos nos unir inependente de escolhas politico partidárias, e lutarmos por um pais, onde a desigualdade social é tão latente, enquanto seu vizinho vende drogas pra sustentar a familia e "você" anda de carro, novo todo ano. Não me entenda mau, não é que você não possa andar de carro novo, não é isso. Mas devemos lutar para que todos possam como Lefebvre diz: TER O DIREITO A CIDADE, o direito a moraia, não acredito que Dilma conseguirá resolver todos os problemas do nosso país, mas creio que ela possa fazer muito mais do que Serra faria, se o mesmo fosse eleito. Pois grande parte da bancada do senado e da Camara são coligados ao Partido dos Trabalhadores.

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  2. Perfeito. As palavras de Thiago nos faz repensar sobre tantas coisas, nos faz relembrar parte da história do nosso país(mesmo que alguns de nós não a tenhamos vivido) e, com essa "rememorização" nos traz de volta um pouco de esperança (é possível sim melhorar o Brasil, é possível sim lutar contra a desigualdade, contra a injustiça e etc.) e de comprometimento. A onda xenófoba não deve nos impedir de lutar por melhorias. Que uma outra força nos mova, a força dos que lutam para sair da miséria, a força da maioria dos brasileiros. Sim, nós podemos, nós conseguiremos! E que o blog continue atuando =D
    Parabéns e muito sucesso!

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  3. Hoje o Paulo Henrique Amorim fez um post sobre o mesmo assunto.

    http://www.conversaafiada.com.br/politica/2010/11/04/escandalo-esta-em-marcha-o-%E2%80%9Csp-so-para-paulistas%E2%80%9D/#comment-264307

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